Os perigos ocultos do dado de inflação nos EUA (e que os mercados parecem ignorar)

Os perigos ocultos do dado de inflação nos EUA (e que os mercados parecem ignorar)
Os perigos ocultos do dado de inflação nos EUA (e que os mercados parecem ignorar)
Wall Street
“Núcleo” da inflação vem acima do valor “cheio” e coloca um dilema sobre o Federal Reserve (Imagem: REUTERS/Andrew Kelly)

O índice de preços ao consumidor (CPI, na sigla em inglês) do mês de março veio para embaralhar a cabeça do investidor.

Por um lado, a alta abaixo do consenso de 0,1% na base mensal chancela um processo lento de desinflação, ao qual o mercado tentou se ater no início de pregão em Nova York. Ao fim dos últimos 12 meses, a inflação dos EUA chega a 5%, o menor nível desde 2021.

Entretanto, como já havia sido antecipado, o núcleo da inflação (que desconta itens voláteis como energia e alimentos) ultrapassa a leitura cheia, ao avançar 5,6% no acumulado dos 12 meses e 0,4% na base mensal.

Eis o grande perigo da leitura do dia: uma “troca de papéis” que coloca os preços mais “duros” da economia — e que, portanto, são mais difíceis de ser alterados — frente aos itens mais voláteis.

De acordo com a Capital Economics, alguns vilões explicam essa tendência. A principal delas é a moradia, que permanece elevada, a despeito de sinais de desaceleração. O componente subiu 0,5% na base mensal, uma desaceleração frente à alta de 0,7% registrada em fevereiro.

A evolução dos preços dos automóveis usados e do setor de serviços — que pode apresentar mais pressão com o aumento dos serviços aéreos  — também merecem atenção nas próximas leituras.

Além do custo de moradia, a consultoria financeira alerta que o corte de 1,6 milhão de barris por dia anunciado pela Opep+ no início do mês deverá reverter parte da desinflação sentida pelos componentes de energia no último mês.

Inflação por categoria
A inflação no acumulado de 12 meses, de acordo com as principais categorias [Fonte: Bureau of Labor Statistics]

Bases “distorcidas” enganam no Brasil e nos EUA

Se estes argumentos não parecem suficientes para causar ceticismo com a leitura do dia, Bruno Perottoni, diretor de tesouraria da Braza Bank, explica que a base de comparação para o acumulado de 12 meses da inflação está “distorcida”.

Outro ponto relevante é que a comparação com março do ano passado pode ser mal interpretada, uma vez que, no mesmo mês em 2022, tivemos o início do conflito entre Rússia e Ucrânia, com uma grande aceleração dos preços e forte impacto no índice”, explica.

Mont Capital - Carteira Administrada

A análise de Perottoni traça paralelo com o alerta feito por economistas ontem à interpretação mais eufórica do IPCA de março do Brasil.

Em ambos os contextos, a explosão de preços ocasionada pela deflagração do conflito no Leste Europeu, e que prolongou os efeitos mais intensos até os meses de maio e julho de 2022, favoreceria um arrefecimento da inflação acumulada no primeiro semestre deste ano, mas traria um efeito contrário no segundo.

Como fica a situação para o Fed e para os juros?

O impasse das “duas inflações” favorece a continuidade das apostas em uma alta de 0,25 ponto percentual (p.p.) para a reunião de maio do Comitê Federal de Mercado Aberto (Fomc) do Fed. O cenário já vinha sendo ventilado mesmo antes da divulgação do payroll divulgado na última sexta-feira (7).

De acordo com o Fed Funds, 70% das apostas favorecem uma alta de 0,25 p.p., ao passo que 30% acreditam em uma taxa de juros sem alteração.

Para Marcelo Oliveira, co-fundador da Quantzed, o CPI de hoje prepara caminho para o que deverá ser a última alta do ciclo monetário. “A inflação no mundo todo está arrefecendo. Acredito que o Fed não mude muito ainda a postura e virá com 25 pontos-base na próxima [reunião], que seria a última alta deste ano, a princípio.”

A fala de Oliveira é corroborada pelas declarações recentes de vários dirigentes do Fed, que pedem aos mercados prudência e paciência com o ciclo monetário. Ainda ontem, o recém-eleito presidente da distrital de Chicago declarou não apoiar cortes prematuros na taxa de juros, mesmo diante de um cenário de crescente estresse financeiro.

Segundo Austan Goolsbee, dada a dificuldade que o Fed teve para reduzir a inflação até agora e o perigo de ceder “sempre que o mercado tiver um acesso de raiva”, o banco central deve se apoiar primeiro em ferramentas de supervisão e regulamentação para lidar com o estresse do sistema bancário.

Por efeito da decisão de março, a taxa-base dos juros americanos está na faixa de 4,75-5%.